«Dezenas de editoras, a maioria das quais hoje desaparecidas enquanto casas independentes, estavam nessa altura a produzir livros intelectualmente relevantes. Algumas, como a McGraw-Hill, que publicou grandes autores como Vladimir Nabokov, viraram-se para a área do livro técnico e de gestão. Outras, como a Schocken, a Dutton ou a Quadrangle, submergiram em grandes grupos económicos, tendo perdido identidade própria. Outras ainda, como a John Day e a McDowell Obolensky, juntaram-se aos anais da História, fazendo agora parte de um passado em larga medida esquecido.»
André Schiffrin, O Negócio dos Livros, Letra Livre (tradução de Octávio Lemos e Rui Lopo, intróito de Vítor Silva Tavares; pg. 92)
Crónica publicada na “Revista 2” de domingo 24 de Novembro de 2013 ALEXANDRA LUCAS COELHO
1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar, que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que penso todos os dias é que a duas ruas de mim vive o Vitor Silva Tavares.
2. Houve uma era, já depois do Paleozóico, em que existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).
3. (Ele diria cartinhas, porque nisso é como os mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)
4. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro, tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora, é uma morada: & etc, Rua da Emenda, 30, cave 3.
5. Vem tudo isto a propósito do livro & etc — uma editora no subterrâneo, iniciativa da livraria Letra Livre, coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca, para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado, como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição de O Bispo de Beja. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados: conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para os destruir.
6. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares. Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os títulos têm apenas uma edição, com excepção única para O Bispo de Beja, obra apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais; a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos ou ofertas aos críticos.”
7. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um homem livre.
«A Ordem, pois. Graças a ela cresceram e multiplicaram-se, desfizeram-se e reciclaram-se Clãs, Tribos, Nações, Estados, Impérios. Por mor dela se ergueram torres e torres e pirâmides sociais – do maralhal da base aos sobas do topo. Para assegurá-la se armaram milícias, mercenários, verdugos, policias, tropas. Para espiritualizá-la se esgalharam metafísicas, credos, filosofias, catecismos. É que os homens são uns eternos insatisfeitos e depois há por ai, houve sempre e haverá, demasiado gentio a agredir meio mundo com a exibição das suas misérias e a vociferação dos seus rancores, quando não pronto a dar o corpo ao manifesto em momentos de aperto. Que fazer, na circunstância? Toca a salvaguardar os Valores, e à má-fila: com pau, calhau, pez, pistola, canhão, gás, granada, napalm, bomba atómica, que sei eu?, hipoteca e arresto de bens. Na Propriedade ninguém mexe porque é sagrada e o resto são conversas. Logo, decorre daí que não há guerra que não seja santa e como tal justificada: vá pois de malhar em mim, no sindicato, na greve, na revolta, na insurreição, no terrorismo internacional, no Inimigo à vista e a ver vamos. Nem que o berlinde estale de vez, dissipando-se na eternidade. Sem Valores é que nada feito…»
Nota da edição da Punkto
Este texto de Vítor Silva Tavares foi publicado como prefácio à edição de “A Religião do Capital” de Paul Lafargue, traduzido pelo próprio Vítor Silva Tavares e por Célia Henriques e publicado em Abril de 1996 pela &etc. Transcrevemos e publicamos este texto como homenagem a Vítor Silva Tavares, que morreu no dia 21 de Setembro de 2015.
Vitor Silva Tavares, 78 anos, morreu nesta segunda-feira de manhã no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde tinha sido internado uma semana antes devido a uma infecção cardíaca. A família pretende fazer uma cerimónia privada e prefere não divulgar publicamente informações sobre a mesma.
Os livros ficam, o editor desaparece. Era fácil ficar horas a ouvir Vitor Silva Tavares porque já ninguém fala como ele, um português de língua afiada e refinada, elegante e pé-descalço (ele diria: “do melhor Gil Vicente”), algo que partilhava com o amigo João César Monteiro, tanto quanto a magreza e o espírito libertário. Em 2014, quando o PÚBLICO falou com ele a propósito da edição da obra escrita de César Monteiro, Vitor Silva Tavares confessou que a morte do cineasta, em 2003, deixara um vazio que não tinha sido preenchido. Silva Tavares referia-se a um vazio pessoal, naturalmente, mas também estava implícito um vazio colectivo. O mesmo acontece agora, com a morte de Silva Tavares, um dos mais originais e radicais editores portugueses. É toda uma geração, de resistência cultural e política, que tem os dias contados.
“Perdemos o último dos resistentes, o pai de gerações e gerações de poetas. Há muita gente que lhe vai sentir a falta. Mesmo muita”, diz Paulo da Costa Domingos, poeta e editor da Frenesi, que se cruzou com Vitor Silva Tavares no início da década de 1970, quando o editor o publicou pela primeira vez, ainda na revista &etc que viria a converter-se na lendária editora com o mesmo nome.
Em 1974, ainda antes do 25 de Abril, Vitor Silva Tavares criou a &etc, uma pequena editora independente que se distingue, até hoje, pelo formato quadrado dos seus livros, pelo seu catálogo de autores e títulos raros e marginais e por se manter praticamente inalterável ao longo de mais de 40 anos de existência, apesar das transformações do negócio editorial. Sempre recusou a ideia de publicar livros para fazer lucro. Entre os autores publicados pela &etc contam-se Herberto Helder (Cobra, 1977), Alberto Pimenta, João César Monteiro, Antonin Artaud, Adília Lopes, Henri Michaux, Sade, Robert Walser, entre muitos outros.
Nascido em 1937, Vitor Silva Tavares era um “lisboeta da Madragoa”, como fazia questão de lembrar. E continuava a ser: vivia na Rua das Madres e todos os dias ia a pé para a &etc, uma cave na Rua da Emenda, ao Chiado.
Começou como jornalista em Angola, onde viveu entre 1959 e 1962, no jornal O Intransigente. Já em Lisboa, fez crítica de cinema na Flama e noJornal de Letras e dirigiu o suplemento literário do Diário de Lisboa.
Tornou-se editor, como dizia, “por mero acaso”. Surgiu o convite para dirigir a Ulisseia, onde publicou Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, livro anti-colonialista em plena guerra colonial, os surrealistas portugueses – que nenhuma editora publicava – e o primeiro livro de Luiz Pacheco, Crítica de Circunstância, que é apreendido pela PIDE. A &etc começou por ser um magazine de cultura do Jornal do Fundão, onde José Cardoso Pires também escrevia, e foi depois uma revista, entre 1973 e 1974. Por ter começado como magazine, Vitor Silva Tavares continuou sempre a falar da editora no masculino, dizendo “o &etc”.
Uma obra de Alberto Pimenta, de 1977
Fazia pequenas tiragens e não reeditava as obras esgotadas, preferindo lançar novos títulos. A única excepção foi O Bispo de Beja, de Homem-Pessoa, poema satírico e anticlerical, que voltou a editar depois de o livro ter sido apreendido em 1980 – seis anos depois do 25 de Abril – por ordem do Ministério Público e os seus exemplares terem sido queimados no Tribunal da Boa Hora durante o julgamento do editor, acusado de abuso de liberdade.
“Um editor solidário veio propor-me uma co-edição de cinco mil exemplares, o que recusei imediatamente (não queria explorar comercialmente um escândalo desses). Tratava-se de um caso político. A reedição é uma reincidência, um desafio às autoridades”, contou em 2007 ao jornal brasileiro K Jornal de Crítica.
Não fazia promoção dos livros, nos quais imprimia um rigoroso cuidado gráfico – exemplares encadernados à mão, o design das capas influenciado pelo construtivismo russo ou com as ilustrações de Luís Manuel Gaspar – que, a par do formato de falso quadrado (15,5 por 17,5 centímetros), os tornavam absolutamente reconhecíveis e distintos no mercado editorial.
“Talvez fosse um dos últimos editores que tinha uma relação de paixão com as artes tipográficas, absolutamente distinto dos gerentes e gestores das editoras”, diz Eduardo Sousa, editor e livreiro da Letra Livre.
“Quando se diz que o Vitor era um editor radical, não se está só a falar em política ou ideologia. O Vitor era um radical no tratamento da obra gráfica, um editor de livros, não de fotocópias, como há muitos por aí”, diz Paulo da Costa Domingos, que trabalhou de perto com Silva Tavares, a quem reconhece uma “ética inabalável” que se reflectia em todos os aspectos da sua vida, sobretudo no trabalho.
O editor da &etc fazia tudo para não trair “o espírito e a palavra” dos seus autores, diz o poeta, que coordenou o livro de homenagem aos 40 anos da &etc, Uma Editora no Subterrâneo (Letra Livre, 2013). Nunca lhe passaria pela cabeça publicar um texto de alguém de quem não gostasse, que não quisesse ter por perto. “A &etc é como uma impressão digital, é de um indivíduo. O que se publicava na &etc não era sujeito à apreciação de um colégio editorial – o Vitor decidia e estava decidido. Ele gostava ou não gostava e não sentia necessidade de explicar porquê.”
“Ele tinha uma grande abertura para poetas muito diversos e privilegiava os autores que iam surgindo à margem do chamado mainstream. Estava sempre muito atento, desperto”, diz o poeta Gastão Cruz, que foi publicado pela primeira vez por Silva Tavares em 1978 (Campânula). Foi outro poeta, Herberto Helder, que os aproximou. “Já não me lembro como foi, ando a ver isso nas cartas que troquei com o Herberto”. Gastão Cruz lembra que Vitor Silva Tavares só publicava “coisas em que acreditava”, mesmo quando estava entre os primeiros – se não era mesmo o primeiro – a “acreditar” em determinado autor.
A maneira de Silva Tavares trabalhar deixa lastro noutros projectos editoriais, a Frenesi de Paulo da Costa Domingos, a Averno de Manuel de Freitas, a Fenda de Vasco Santos, ou a Hiena de Rui Martiniano, que nasceram à luz da &etc e perpetuaram o seu “espírito”.
“É uma influência óbvia na minha geração de editores independentes, que trabalham com a mesma visão que ele tinha, do livro não como produto comercial mas como objecto cultural”, diz Eduardo Sousa, 58 anos.
“O Vitor contava histórias e ensinava a liberdade, a rebeldia e o humor a quem o rodeava. Desenhava projectos. Concretizava muitos”, recorda o editor Nelson de Matos, que trabalhou com Silva Tavares no suplemento literário do Diário de Lisboa e no Jornal do Fundão.
“Muita coisa do que vivemos hoje já não existe. Sobram os livros, a editora a que ele deu vida e prolongou até à actualidade. Sobra também a sua escrita, por aí dispersa, resistindo. À espera.”
Pedro Piedade Marques conhecia Silva Tavares apenas há três anos, mas é ao editor da &etc e à sua “imensa generosidade” que deve a monografia que vai lançar até ao final do ano, Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, um volume sobre “outro dos nomes esquecidos” do mundo dos livros em Portugal.
“Não tinha um arquivo organizado, mas tinha uma memória fantástica. E a essa memória devo muitas das histórias que conto sobre o Ribeiro de Mello, sobre aquela Lisboa”, diz o editor deste volume que conta com dois textos inéditos de Silva Tavares.
Piedade Marques tencionava dedicar um outro livro aos três anos e meio em que Silva Tavares foi o responsável editorial pela Ulisseia, na década de 60: “Ele viveu aventuras incríveis com o Luiz Pacheco e com os surrealistas, editou muita coisa proibida. Teve, por exemplo, a coragem de publicar França, a emigração dolorosa, do Nuno Rocha, quando a emigração era um tema completamente tabu, em que ninguém tocava.”
Jorge Luís Borges
"Que outros se vangloriem das páginas que escreveram, a mim me orgulham as que tenho lido."
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